segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Sleep, My Love" - Douglas Sirk (1948)


É sempre bom encontrar um filme como esse aqui de vez em quando. Quem conhece a obra de Douglas Sirk sabe que ele é um diretor expert em melodramas com "M" maiusculo e de muita qualidade. Assistir a esse filme se torna um prazer a mais, pois vemos todo o requinte dele só que num gênero incomum para sua obra. Engraçado como ele, e tantos outros, passam tão despercebidos e ficam esquecidos. Tá certo que esse aqui sofre do mesmo mal que o "Secret Beyond The Door" que é o de ter um plot muito semelhante ao de outro filme de grande sucesso lançado anteriormente. Mas isso não deveria ser uma questão tão importante, se o diretor se dá pelo menos o trabalho de transformá-lo em algo único, como é o caso. Se em "SBTD" o filme se assemelha muito com "Suspeita" (1941) e "Rebecca" (1940), aqui temos uma ligação muito forte do plot com o "Gaslight" (1944).
Nos dois filmes temos um homem levando a sua mulher a creditar que ela está ficando louca, até que ela encontra um outro homem que se apaixona por ela e resolve investigar os estranhos acontecimentos. Se em "Gaslight" os acontecimentos vão se dando progressivamente e de forma claustrofóbica, aqui já entramos na história logo de cabeça. O filme já começa com a personagem principal acordando sozinha e desesperada num trem, sem ter idéia de como chegou ali. Daí em diante vamos acompanhando todas as armações do seu marido que está de olho em sua herança. Diferente de "Gaslight", que o personagem do marido usa de jogos psicológicos para desestruturar a mulher, esse daqui apela mesmo para o uso de drogas alucinógenas que ele põe em seu chocolate quente todas as noites antes de dormir.
Douglas Sirk consegue transformar o filme em algo tão estiloso, que não consigo lembrar de nada na história do cinema que se assemelhe as cenas em que Claudette Colbert está alucinando e sendo guiada pelo marido. O filme usa e abusa de efeitos provocados pela luz e sombra, o que funciona perfeitamente na fotografia P&B e ajuda a criar o clima de mistério. Claudette Colbert realmente era uma grande atriz, ela consegue dar veracidade a todas as cenas em que está alucinando, o que não deve ter sido fácil. Constato que ainda não assisti um filme com ela, em que não estivesse simplesmente impecável.

DISPONIBILIDADE:
DVD: Só lá fora.
Internet: Emule.

“Ele estava aqui. Eu vi! Eu vi!”

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"Interrupeted Melody" - Curtis Bernhardt (1955)


Os filmes biográficos sempre foram um fetiche de Hollywood. Dos que assisti até agora da era de ouro esse é o mais feliz. Conseguiu-se aqui encontrar uma história real dramaticamente potente, com ótimas interpretações, ótima direção e linda fotografia e direção de arte. O filme conta a história da cantora lírica Marjorie Lawrence, que no auge da carreira foi diagnosticada com pólio o que a deixou numa cadeira de rodas. O filme acompanha o início de sua carreira e a sua volta aos palcos depois de sua doença.
Muitas coisas chamam a atenção nesse filme, mas principalmente o talento e beleza de Eleonor Parker. Parker consegue tanto criar um personagem sólido como Marjoire, como os diferentes tipos que interpreta em cada numero de ópera belamente apresentado no filme. A atuação de Parker rendeu-lhe uma indicação ao Oscar (umas das 3 que teve durante a carreira). Como muitas grandes atrizes, Parker não soube se manter no auge e acabou caindo no ostracismo. Continuou trabalhando até a década de noventa em pequenos papéis até se aposentar permanentemente. Uma pena, pois apesar de ainda viva, hoje permanece quase esquecida pelo grande público e pela crítica que só lembram-se dela como a Baronesa do "The Sound of Music" ("A Noviça Rebelde"). Segundo alguns críticos a versatilidade de Parker foi sua pior inimiga, pois o público nem sempre consegui relacionar os diferentes tipos que interpretava a mesma atriz. Vale à pena conferir, não só pelo talento de Parker como também pelos lindos trechos de ópera.

"Hoje eu estou apaixonada pelo mundo e quero que ele inteiro saiba!"

DISPONIBILIDADE:

Só no Emule e sem legenda.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"Sullivan's Travels" - Preston Sturgers (1941)


“Contrastes Humanos” – Apesar do titulo em português dar a entender que se trata de um drama denso e social, o filme não é assim. Essa ode ao riso ganhou um lugar especial no meu coração por tratar sim de temas sociais, porem de forma tão delicada e lúdica. O filme conta a história de um diretor de cinema hollywoodiano (o tal Sullivan) que tenta a todo custo fazer um filme denso e social (assim como o titulo em português indica), um filme que pudesse mostrar para a grande massa o sistema e a situação em que estão inseridas. Depois de brigar com alguns executivos do estúdio que o confrontam com o fato de ele nunca ter passado nenhuma necessidade na vida, logo não tem autoridade pra falar do assunto, ele decide se disfarçar de mendigo e embarcar numa jornada pela margem da sociedade no intuito de conhecer verdadeiramente esse submundo.
Nesse caminho ele encontra muitos personagens, sendo a mais importante a de Veronica Lake: uma frustrada aspirante a atriz , que no seu caminho de volta pra casa o encontra numa lanchonete como mendigo e paga pra ele um café da manhã. Depois que ela descobre o seu plano ela convence ele a deixar que ela o acompanhe em sua jornada. Lógico que os dois se apaixonam a primeira vista e ficam nesse vai-não-vai a maior parte do filme.
Mas o mais interessante é que desde o primeiro momento o filme mostra como todos esses personagens são dúbios. Desde o Sulivan, em sua prepotência de querer falar de um mundo que não conhece, e em até determinado momento se referir a ele com bastante arrogância e preconceito. Até a personagem de Lake, que da a entender logo de primeira que fez de tudo... TUDO, pra conseguir um papel em Hollywood. E mesmo assim todos eles são apresentados e tratados com tanto carinho pelo diretor que é impossível não sentir empatia.
Outra coisa que me chamou atenção é como o filme acaba com a idéia de que a comédia, como gênero, seria apenas uma forma de escapismo e alienação das grandes massas. Ele não diz apenas: “rir é o melhor remédio”. Já que ele mesmo, sendo um filme cômico, consegue mostrar várias nuanças e contrastes desses dois mundos, tanto o da elite dominadora como e o que está à margem, e mesmo assim fazer rir. Usando o gênero da comédia como uma forma mais direta de comunicação com o público. Não vou nem ficar dividindo minha impressões do filme em tópicos como direção, fotografia, roteiro e atuação... pois todos esses aspectos pra mim estão perfeitos levando em consideração a proposta do filme.


"John L. Sullivan:Eu quero que esse filme seja uma crítica a situação que vivemos. Realismo total. Os probelmas que são enfrentados pelo homem comum!
Executivo do Estúdio 1: Mas com um pouco de sexo nele!
John L. Sullivan: Um pouco, mas não muito. Eu quero que esse filme seja um documento! Eu quero segurar um espelho em frente da vida. Quero que esse filme seja um filme de dignidade! Um verdadeiro reflexo do sofrimento da humanidade!
Executivo do Estúdio 1: Mas com um pouco de sexo nele!
John L. Sullivan: [relutante] Com um pouco de sexo nele...
Executivo do Estúdio 2: Que tal um bom musical?”

Disponibilidade:
Disponível em DVD no Brasil.
Para baixar o Filme clique aqui. Legenda aqui.
Para assistir no Youtube, sem legenda, clique aqui.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"Valley of The Dolls" - Mark Robson (1967)


Pra falar desse filme tenho de me dividir em dois: numa pessoa que não leu “O Vale das Bonecas” e numa que leu. Das duas formas não deu pra ficar muito feliz. Vamos à primeira: Já sabia que ele era considerado um dos piores e mais cafonas (campy) filmes da historia do cinema... Até ai tudo bem, quem não gosta de um exagero - vide “Beyonde the Forest”. E nesse aspecto o filme até consegue em alguns momentos divertir pelas situações exageradas e afetadas que cria. Os atores em sua maior parte se viram bem, principalmente Patty Duke (a eterna Helen Karen).
A unica que deixa desejar é a Sharon Tate (aquela que era casada com o Polanski e foi assassinada pelo Charles Manson), que é a mais prejudicada pela fragilidade do roteiro (e também por que não era muito boa, apesar de linda). Roteiro esse que é na sua maior parte chato e maçante, e falha ao tentar construir qualquer relação sólida entre as três personagens principais - que é o elemento principal da trama. No demais, dá pra perceber que direção optou por abraçar descaradamente os mais diversos clichês do cinema nas situações mais exageradas possíveis, o que diverte numa cena ou outra, mas cansa depois de 2h de filme.
Se por esse ponto de vista já não se pode esperar muito do filme, imagina o ponto de vista de quem leu o livro. Quando li que autora do livro (Jaqueline Susan) o odiava mortalmente, imaginei que era frescura de autor. Mas quando soube que até as atrizes tinham vergonha dele, fiquei com o pé atrás. Ao assistir descobri por que: o filme consegue transformar um livro tão sagaz, brilhante e interessante em algo extremamente maçante, superficial e piegas. Uma pena... O roteiro além de limar uns 70 % dos personagens e uns 50% das ações mais importantes da história, também se da ao luxo de mudar completamente o final da história, tornando-o a coisa mais politicamente correta e piegas do mundo. Enfim... Leiam o livro, é melhor... Mas se quizerem assistir ele está disponível no Youtube.

“É preciso escalar o topo do monte Everest
Para alcançar o vale das bonecas...”

terça-feira, 14 de julho de 2009

"Fanatic" (a.k.a. "Die! Die! My Darling!") - Silvio Narizzano (1965)


Esse aqui é um dos muitos filmes que seguiram a onda de "O que terá acontecido a Baby Jane?". O que eles tem em comum, além de se tratarem de filmes de suspense, é o fato de contarem com a participação de grandes atrizes de outrora que encontravam nesses filmes um bom veiculo para mostrarem seus trabalhos depois de uma certa idade. Quase nenhum deles chegou ao mesmo patamar de Baby Jane, mas em todos podemos perceber atuações impecáveis de grandes atrizes quase esquecidas pelo público na época de sua feitura. E se formos analisar, quase todas as grandes atrizes da década de 30, 40 e 50, possuem no final de carreira filmes de suspense que seguem os moldes de Baby Jane.
A bola da vez aqui é Tallulah Bankhead. Bankhead é uma das figuras mais carismáticas da cultura Norte Americana, considerada a grande dama do Teatro de lá, ela foi uma das atrizes que foi para Hollywood no começo do cinema, não gostou e acabou voltando para o teatro por conta própria. Uma pena para nós que só podemos acompanhar seu trabalho em apenas 15 filmes, fora participações em programas de rádio e televisão disponíveis no Youtube. Escolhas a parte, Bankhead sabia da importância desse filme para posteridade, era seu primeiro em 20 anos e acabou sendo o ultimo de sua carreira. Resultado: uma interpretação impecável de uma velha fanática religiosa que persegue e tortura a noiva de seu finado filho.
É basicamente esse o plot do filme. Uma jovem resolve visitar sua ex-sogra no interior da Inglaterra e comunicar de seu novo noivado. Assim que chega e se hospeda em sua casa, ela começa a perceber que há algo de estranho com ela e com seus empregados só que quando tenta ir embora é um pouco tarde demais. Ok, já vimos isso várias vezes e a primeira vista a moldura do filme (fotografia e direção) pode afastar um pouco, extremamente campy e artificial. Mas a medida que o filme se desenvolve percebe-se uma forma britânica de fazer terror que faz toda a diferença. O realismo que a violência é tratada nos filmes britânicos chama muita atenção. Algo que já havia percebido em filmes como o "Blind Terror" é presente aqui também. Sabe quando você assiste um filme de terror e pensa: "Por que ela tá correndo do assassino subindo a escada, e não saindo pela porta?". Isso não acontece aqui, a vitima sempre faz tudo que uma pessoa normal faria, só que sempre se dá mal. O que dá um medo maior pois você como platéia se identifica e fica impotente assim como a personagem. A direção e o roteiro não nos poupa de cenas fortes o que surpreende, pois você nunca imagina que um filme com arte tão bonitinha e artificial ia chegar ao ponto que chega. Muito bom!
Para ver no youtube clique aqui!

"Agora eu sei por que o seu filho se matou!"

domingo, 10 de maio de 2009

"My Reputation" - Curtis Bernhardt (1946)


Esse filme aqui não passa de um bom veiculo para Barbara Stanwyck, nada mais que isso... Por alguns momentos você até espera que ele irá te surpreender e que você verá uma análise mais profunda da condição da mulher na primeira metade do século passado... Mas nem, ele fica na superficialidade mesmo. Mas graças a alguns fatores ele mesmo assim consegue se sair como um bom filme. Super Barbara Stanwyck mais uma vez vem salvar o mundo de qualquer pieguice mal feita. Elas existem no filme, mas são bem executadas pelo elenco.
O filme conta a história de uma jovem viúva que tenta reconstruir sua vida após o falecimento do marido. Ela se divide entre os dois filhos, a sua mãe dominadora e alguns amigos da alta sociedade. Num final de semana no campo ela conhece um oficial do exercito e se apaixona. Quando os dois engatam um romance ela começar a ter de lidar com a resistência da sociedade preconceituosa em que vive e de sua família para viver sua história de amor.
O que na época poderia ser uma grande coisa, o fato de uma viúva, mãe de dois filhos, engatar num outro romance pouco tempo depois da morte do marido, hoje em dia não tem o mesmo efeito. Então não tem como olhar o filme com um ar meio de ultrapassado. Nem a cena em que ela confronta a sociedade em que vive em nome do amor, tem tanto efeito como gostariam. O filme de qualquer forma tem bons momentos, como a primeira parte, onde é mostrada essa mulher tentando se reerguer e entrando em crise existencial onde não consegue encontrar uma saída. Claro que tudo isso é feito com muito melodrama e exagero, mas já é valida a tentativa. No final fica a sensação de ter assistido a um filme até bonito, mas não genial.

"Eu não sei o que há de errado comigo! Eu pareço estar despedaçando..."

sábado, 25 de abril de 2009

"The Course Of The Cat People" - Gunther von Fritsch & Robert Wise (1944)


Como o próprio título já indica, esse aqui é a continuação do ótimo "Cat People". Então, continuações nunca dão muito certo. E essa aqui, assume um lugar mais estranho pois nos passa sensação de estarmos assisnto dois filme diferentes ao mesmo tempo. Apesar de Robert Wise ter substituido o Von Fritz no meio das filmagens, a mudança passa despercebida. O problema maior do filme é o roteiro mesmo. Tentaram arrumar alguma desculpa para aproveitar um pouco do sucesso do filme original, escalaram os atores principais do filme anterior e criaram uma história que não tem quase nenhuma relação com o plot e estilo do original.
Aqui, depois de se livrar da sua mulher amaldiçoada no primeiro filme, Oliver se casa com sua colega de trabalho e se muda para o interior onde tem uma filha. É essa menina que vai desencadear a história. Ela é uma menina solitária e excêntrica, que acaba sendo excluída pelas outras crianças e desenvolvendo um amigo imaginário... Ops, amiga. Que não por coincidência é o espírito de Irena, a ex-mulher amaldiçoada. Ai você pensa: "Ah tá, essa mulher então vai ficar infernizando a filha do cara e obrigando-a a fazer coisas macabras!". Nem, a relação que as duas criam é uma relação tão doce e bonita fazendo com que aqui o filme tome duas direções, essa aqui baseada na relação das duas, que mostra de forma muito bonita e interessante a solidão no mundo infantil, e os mundos mágicos que vão sendo criados por uma criança, e que por si só já valia o filme.
E uma outra, na verdade uma pedra que estava no meio do caminho, uma pedra em forma de uma ex-atriz idosa e esclerosada, que mora perto da casa da menina e que acaba fazendo amizade com ela, pra desespero de sua filha, que também não é muito certa da cabeça. Resultado: o teor de mistério e suspense no filme acaba ficando a cargo da relação de ciúmes que essa velha, sua filha e a menina acabam criando, enquanto a fantasma assume a função de anjo protetor.
Eu prefiro assistir o filme ignorando essa segunda parte... Que no clímax chega até ser ridícula de tão piegas. Os momentos da menina com o fantasma de Irena são tão bonitos, interessantes, que acabam por si só criando uma espécie de suspense, pois a todo momento você fica se perguntando se não há nada por traz das boas intenções de Irena. A atriz mirim que faz a menina, Ann Carter, é de uma doçura e inocência tão cativantes que talvez seja ela a grande responsável pelo funcionamento dessa metade do filme funcionar. As direções são corretas, apesar de não dar pra perceber nenhuma mudança brusca na forma de filmar, acredito que o mérito maior deva ser de Robert Wise mesmo, pelos trabalhos dele vistos anteriormente.

"Você não pode falar de mim pra ninguém, ouviu? Muito menos para seus pais..."